A endometriose é tradicionalmente descrita como uma patologia ginecológica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina, frequentemente associada a dores menstruais intensas, dor pélvica e dificuldade em engravidar. Contudo, a ciência tem vindo a mostrar que esta definição é redutora. A endometriose deve ser vista como uma doença inflamatória sistémica multifatorial, com impacto em vários sistemas fisiológicos.
Estudos demonstram maior prevalência de ansiedade e depressão em mulheres com endometriose quando comparadas com a população geral. Durante muito tempo acreditou-se que isto acontecia apenas devido à dor crónica ou aos longos atrasos no diagnóstico. Hoje sabemos que pode existir mais do que isso. Estudos mostram alterações neurológicas em áreas do cérebro responsáveis pelo processamento da dor e das emoções, sugerindo que a própria doença pode influenciar o sistema nervoso. Isto ajuda a explicar porque tantas mulheres descrevem não só dor física, mas também exaustão emocional.
Cada vez mais investigadores defendem que a endometriose deve ser entendida como uma condição inflamatória crónica. As lesões libertam substâncias inflamatórias que podem afetar diferentes tecidos do corpo, não apenas a região pélvica. Este ambiente inflamatório está associado a sintomas variados como fadiga, alterações digestivas, dor generalizada e até maior risco cardiovascular. Ou seja, não é apenas “tecido fora do lugar”. É um processo biológico ativo.
Um dos mecanismos centrais da endometriose é a resistência à progesterona. Dado o papel anti-inflamatório desta hormona, a sua ação reduzida permite atividade estrogénica não regulada. Adicionalmente, as próprias lesões apresentam capacidade de produção local de estrogénio, perpetuando um ciclo autossustentado de inflamação e sobrevivência celular. Este mecanismo ajuda a compreender a variabilidade de resposta às terapêuticas hormonais, incluindo contraceção hormonal, que pode reduzir sintomas sem necessariamente modificar a progressão da doença.
A crescente associação entre endometriose e alterações cardiovasculares, neurológicas, metabólicas e imunológicas reforça o seu enquadramento como doença sistémica. O reconhecimento desta complexidade é fundamental para promover: diagnóstico mais precoce, abordagens terapêuticas multidisciplinares e desenvolvimento de estratégias não exclusivamente hormonais.
A evolução do conhecimento científico aponta, assim, para uma mudança de paradigma: a endometriose não deve ser entendida apenas como uma patologia reprodutiva, mas como uma condição inflamatória crónica de impacto global na saúde da mulher.
Se queres aprofundar este tema, partilho mais sobre endometriose no último episódio do podcast, já disponível.
